14 de fev de 2017

X Poemas de uma Palavra Só

(X Devires para uma Dança)


    I – Intensidade...
   II – Serendipedi...
  III – Amplidões...
  IV – Pleroma...
    V – Vacuidade...
  VI – Abismos...
 VII – Amor-fati...
VIII – Caos...
   IX – Ana...
     X - &...

Uma palavra / uma ideia na cabeça / sentindo a pulsação do silêncio / movimenta
Começa a bailar o espírito / nos ritornelos do tempo que se concretiza
Saudades / Maldades / Temporalidade / Velocidade / Completude
O poeta engendra encontros à priori / & sorve de sua solidão o real
Dança / Dança... estrela rubra no centro do mundo
Que o melhor de ser é estar no presente / carregando para o futuro, quando acontecer

Os sonhos onde você sempre habitou...


6 de fev de 2017

[hierosconto] Transparência

   Ela o acordou antes do sol raiar.
   Na penumbra do quarto tocou o corpo dele com uma força carinhosa.
   Se debruçando sobre o corpo quente do marido, ela sussurrou perto do ouvido, perguntando se já havia despertado:
   - Tá acordado? Abre os olhos... quero te falar uma coisa...
   Ele espreguiçou, cedendo, espantando o resto de sono que ainda possuía, & se virou totalmente para ela, acariciando sua nuca por entre as mechas cor de canela.
    Olhando-o nos olhos, o azul no castanho, ela disse:
    - Ontem... quando fizemos amor... foi a melhor vez da minha vida. Nunca vou esquecer, obrigada!
    & libertou um sorriso singelo, enquanto os olhos dos dois se enchiam de lágrimas que eram reivindicadas pelo nó em suas gargantas & a explosão suave em seus corações, que expandiam além do bater, espremendo algo na alma para que aquele pranto de felicidade se materializasse.
   Ele a puxou mais para si, abraçando-a como se abraçam os que estão deitados, dizendo entrecortado pelo nó que apertava & o laço que expandia:
   - Oooo... branca! Eu que não tenho palavras para agradecer tudo que você me dá!
   & as lágrimas, gotas do humor erótico que permanecia desde as altas horas daquela madrugada escorreram ainda mais. Eles as haviam chorado depois daquele citado amor, & foram dormir logo, sem dizer nada, para acertarem essa conta pela manhã, na qual ela não esqueceu & não deixou vencer ou passar.
    Pensando sobre seu prazer daquela vez, & sobre o prazer dela, ele disse:
   - Eu só imagino, não alcanço, o que para você, é sentir prazer. Você me abraça com carne & calor, abraça esse mínimo segredo do sexo, deixa-se ser penetrada, & dessa invasão colhe o gozo. Isso, assim, para um homem não é lá muito agradável! – disse, & riram juntos, baixinho, pensando sobre a condição de um homem ser penetrado, esquecendo das implicações & dos detalhes que outros poderiam discordar... Ele continuou:
   - Nós, homens, eu, tiramos nosso prazer do violar, mas isso para mim, quando te amo, já não basta. Eu quero te penetrar não como quem invade, viola, fere... Eu busco desesperadamente entrar em você como se sobrepõem duas transparências, ou como uma tinta que tinge a água limpa...
   Ele falava dos carinhos dispensados a ela, sementes de todo aquele prazer que ela agradecia. Quando a amava, invariavelmente ele sempre chegava a uma barreira intransponível, aquela que separa os corpos, a lei física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço & no tempo. Ele também sentia isso certas vezes, & se assombrou certa feita quando alcançaram um nada aberto no fim do prazer.
    Naquela noite... daquela vez... ele partiu para o amor já com essa angustia no espírito, & procurou entrar nela não como matéria, mas como energia, entrou não somente pela porta que diferencia macho de fêmea, tentou desesperadamente penetrar nela pelos olhos, pelos poros, pelos cabelos, pela pele, pelos ouvidos, por cada dobra do corpo dela, com beijos, inspirações, mordidas, apertos tenros, & enfim, quando ela implorou, com beijos na boca.
    & ela, passivo alvo da devoção de seu carinho, entendera, & se abriu, o recebeu, sorveu seus toques, cantava a cantiga do gemido para guiá-lo & tranquiliza-lo em sua desesperada busca, acolhendo-o, absorvendo a tensão de ambos na busca do repouso.
   Quando chegaram ao êxtase, finalmente saborearam um sentido, não o do nada amplo, mas do restrito tudo, que se pode obter pelo impacto da carne sobre a carne & da comunhão transcendente dos espíritos: transpirar, transpor, trançar, transar, transir, transer, torpor, transe, transparecer...
    & fora por tudo isso, por saberem se amar, por saber dar & receber & ir além, que aquela tinha sido “a melhor vez” de ambos; eles copularam, se amaram, gozaram, não como se fossem dois corpos, cada um com seu prazer, mas como se fossem um.

   Um só... êxtase! & o êxtase, é o único infinito que um homem e uma mulher podem conhecer...


18 de jan de 2017

Ritornelo/Bolero

Tudo gira & volta pro mesmo lugar
Mas nunca o mesmo...

Saímos por ai & voltamos para casa
Mas nunca igual a quando partimos...

Pois dançamos no caminho...
    sofremos no caminho...

       sorrimos no caminho...


11 de jan de 2017

ÉTHOS & CARTOGRAFIA DE UM CORPO:

Filosofia & Feitiçaria na obra de Deleuze/Guattari e Austin Osman Spare:

Intersecções para uma resposta sobre “O Que Pode Um Corpo?”

                                                                                       
                                                                                      'Nada é mais forte que o
                                                                                        impacto da carne sobre 
                                                         a carne!'
                                                                                        Austin Osman Spare




     Na busca por compreender “o que pode um corpo?” extraviamo-nos além da Ética de Baruch Espinosa e a leitura de Gilles Deleuze em Espinosa – Filosofia Prática, acercando-nos de platôs mais distantes, o mais distante o possível, onde nos encontramos nas paragens da feitiçaria, junto à Austin Osman Spare, para enfim desses confins trazermos, não uma resposta à questão proposta que já temos de antemão, mas para mostrarmos, como quem aponta em um mapa, o que pode o corpo!
         Austin Osman Spare, feiticeiro e filósofo louco da velha Londres dizia que só através da cessação de qualquer dualidade a mente & o corpo seriam livres para dar vazão à todas suas potências, e não seria com a inteligência que conseguiríamos isso, mas sim por algo diferente, que ele chamou de Auto-Amor.
         Assim, rebuscando um mapa intuitivo, de palavras e imagens, traçamos este trabalho, um ensaio, o qual o corpo que tomamos como modelo, é o próprio corpo humano, exemplo em primazia de tudo que é experimentar.

                                                     'Todas as viagens ditas iniciáticas comportam esses 
                                                     limiares e essas portas onde há um devir do próprio
                                                    devir, e onde muda-se de devir, segundo as "horas"
                                                      do mundo, os círculos de um inferno ou as etapas de
                                                     uma viagem que fazem variar as escalas, as formas  
                                                 e os gritos. Dos uivos animais até os vagidos dos  
              elementos e das partículas.'
Deleuze e Guattari 

* Ensaio Completo:


24 de dez de 2016

...transmissão / vetor...

P.A.R.A. Q.U.E. 
V.O.C.Ê. A.C.H.A.
Q.U.E. S.E.R.V.E. O. T.E.M.P.O. ?...
/
Se pudesses prescindir dos seus órgãos / saberia...
Alheio a qualquer querência / o terror inundando cada instante
de significados...
/
O tempo é o sentido maior
de um mapa que só enxergamos um ponto mínimo...
/
& neste ponto mínimo está
tudo que queres...
/
& não desejarás mais do que isto:
...olhos, boca, sexo, pelos, cores, voz, nome, toque...
Até que se desfaça de toda essa organização
& seja:
e.t.e.r.n.i.d.a.d.e...
/
Enganados que os sentidos transmitem sentimentos
Não vemos que o canal destas transmissões
é o Tempo...
/
Vetor de encontros
calamidades
obsessões
significados.


19 de dez de 2016

Horizontes...

    Muitas das coisas em que nos baseamos está ligeiramente, ou muito, equivocado.
    Veja só: o Sol não nasce, ele está imóvel em relação à Terra, então cada aurora não é o “nascer do Sol”, mas um giro da Terra até o mesmo ponto do horizonte onde todos os dias o Sol surge para te iluminar...
    Temos o Sol como referência, mas a verdadeira referência é o Horizonte.
     Da mesma forma podemos interpretar as coisas importantes de nossa vida: Nós mesmos, nossos Amigos, nossos Amores, os Sonhos, as Conquistas...
     O mais interessante é que em nossas relações humanas, não “vamos ao horizonte”, mas o “trazemos” até nós. “Horizonte” quer dizer “limite visto”, então a medida que trazemos o horizonte, as coisas, para mais perto, novos horizontes se abrem... “Importante” deriva de “importar”, que quer dizer “produzir”, e também “trazer para dentro”...
     Tais coisas importantes são aqueles pontos fixos, que apesar dos dias, permanecem como o Horizonte a produzirmos, o qual enxergamos os limites daquilo que nos ampara & permite nos superarmos.
     Dentro da circularidade do Tempo que nos engana em suas repetições, auroras e ocasos, é graças ao Horizonte que temos a referência do Meio-Dia, a realização.
    A Terra gira, o tempo passa, vão-se os anos, mas os Horizontes permanecem, porém enganam-se mais uma vez os que pensam que são fixos, a medida que avançamos rumo à ele, tudo muda...
     Contemple o Horizonte hoje por alguns instantes, é uma visão mágica! Logo ali, ao alcance de seu olhar, está o vislumbre de quão pequenos somos, e ao mesmo tempo, está estampado no grande aberto do mundo & da vida, tudo que desejamos & podemos ser...
    E lembre-se: o mais importante é ser importante para o outro.

    Você é um Horizonte para mim! Você é importante, está para sempre, aqui dentro!

1 de dez de 2016

Meu Grande Meio-dia


                                                                                                “Agora estou em paz
                                                                                                  o que eu temia chegou!
     Belchior
Linhas paralelas
   percorrem todo um universo,
Hão de se encontrar
   no ponto de saída dessa prisão...

Gira a roda,
O carrossel à minha volta
   quase alcança
      a velocidade da tua luz...

Sei que estou de partida:
Quem sabe que não vai voltar
   parte antes de anunciar,
Mas não hoje, ainda, devirá...

Pela falta de algo perfeito
   aqui do meu lado, aqui dentro de mim,
Acordo & sei:
   concordo que é a última vez...

O anel se romperá!
O retorno eterno não mais será,
No hálito do redemoinho,
   pressinto a saudade que ninguém terá...

Já desponta um arco-íris branco
   que os olhos de fora enxergam multicolorido,
De fato, do Amor Fati ele é uma ponte
   apontando um cume distante...

Ainda me esforço
   fazendo nada, mastigando tempo & espaço,
Para que ao sair
    que você saia também, assim quando faço, nos desfaço...

Tão belos,
Mas não mais enganados pelo crepúsculo.
Subvertidos pelas auroras,
Seremos finalmente feios...

& quando não voltarmos mais,
Nada será mais do que como nunca foi
Um dolo, um engano, um nada,
É assim que agora deve ser. 


26 de nov de 2016

@ Romã

Um livro analógico de ditos de amor

Não procure quem te ame,
procura alguém a quem amar.
A. Jodorowsky




Trago nas mãos
Apenas seis favos de romã para te embriagar...


O preço do mais impossível dos amores
Custa seis favos de romã...


Toda dor é finda
& o amor compensa...


Não são estranhos entre si
Aqueles que foram motivos de um sorriso mútuo...


Um desejo profundo
Afoga decepções...


Perséphone Persiphal
De Hades, o Graal...




Mini-obra completa:
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11 de nov de 2016

Onerância

Tive um sonho preto & branco
Em uma praça arquetípica
Sem nenhum som
Só o seu rosto... longe & perto...

Um instante de silêncio
Um toque de olhar
Não precisava de cores
Pra dizer... para significar...

Sono pesado
De travessia de mar
Funerais de poetas
Tronos a se queimar...

É a opressão do amor
O talento do ódio
Expressão de uma dor
Que nas costas, carregava o pódio...

Tive um sonho em branco & preto
Ganhos & perdas
Pré-juízos lunares
Falávamos a língua do esquecimento

...

2 de nov de 2016

Ser para a Morte, Ser para a Sorte

                                                                                            Nascidos, querem viver e ter (m/s)ortes,
                                                                                         ou melhor, descansar, e deixam filhos
para que outras (m/s)ortes sejam geradas.
Heráclito (B20)


 
 “O amor é a compensação da morte”, disse Schopenhauer.

   “Uma compensação deveras injusta!” - direis, pois há os que não amam & os que não são amados, os que não conheceram o verdadeiro amor, porém conhecerão a verdadeira morte & a experimentarão pessoalmente...

   Injusta? Ora, se não te esforçaste para amar, apesar de ter entrado na vida, não deves reclamar então da justiça que é morrer. Eis o preço da vida, gratuito até, um golpe de sorte!

   A vida nos presenteou com a morte para aprendermos a amar.  


   Vida é morte, amor & sorte...




26 de out de 2016

Afirmação de Firmamentos

Neste dia de loucura afirmo então você / Como meu único horizonte /
Cuja dobra é o firmamento que escalaremos até ao que tem de ser!



Ah! Essa doce loucura que me toma
   no insano delírio de meus afetos
      a sorte & o azar dessa trilha que chamo vida...
Sei que é loucura sim,
   pois agora entendi: é minha maior Sabedoria!
Minha maior certeza então tem um nome de luz.

Loucura...
    ultimato intimo zomba atrozmente
       de minhas pretensões!
Mas agora que o sopro do dragão se desfaz
& no seu diluimento coagula a trilha à frente
Eu vejo:
    estou nesse momento sobre a ponte do rio Lethes,
Estou entre o “te conhecer” & o “estar com você”!

Basta saber que eu sei!
Retornos em torno de uma mesma história de nós dois
Aqui eu já passei por aqui infinitas vezes
Nunca desiste em milhões de desistências
Devotei-me à esse zelo de meu modo torto.
Agora, levanto a cabeça & encaro o brilho & sigo feliz enfim...

O teu abraço & teu beijo é & sempre será meu fim.